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Vitória de Santo Antão,13/03/2026

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Poeta da Batateira

O SOBRADO NÃO ABRE DUAS VEZES

Crônica do Recife Antigo

Foto: Autor desconhecido
O SOBRADO NÃO ABRE DUAS VEZES Recife Antigo

O SOBRADO NÃO ABRE DUAS VEZES

                 Entrei no sobrado como quem aceita uma pena leve, dessas que  parecem provisórias. A porta se fechou atrás de mim sem ruído brusco, apenas um  encaixe preciso, definitivo demais para o acaso. Ali compreendi: o prédio nãoera abrigo. Era contenção.

                O corredor estreito avançava em linha reta, sem desvios,como se tivesse sido desenhado para eliminar escolhas. As paredes se erguiamaltas, excessivas, impedindo qualquer noção de escala humana. Não havia janelasao alcance dos olhos. A luz que existia vinha de cima, filtrada por frestasestreitas demais para servir de saída. Arquitetura disciplinar — pensei —,mesmo sem jamais ter estudado isso. O corpo aprende antes do intelecto.

               Cada passo ecoava contido, abafado, como se o próprio somfosse vigiado. O assoalho não rangia ao acaso: protestava apenas onde outroshaviam parado por tempo demais. Ali, a madeira afundava levemente, moldada poresperas prolongadas. Não tive dúvida de que o prédio sabia onde reter peso.

               As paredes carregavam marcas verticais, sulcos profundos quenão pareciam rachaduras naturais. Eram registros. Tentativas de medir o tempocom unhas, talvez. Passei a mão por uma delas e senti o pó fino se depositar napele, como um aviso silencioso: nada aqui passa ileso.

                A escada em espiral surgia no centro, comprimida, girandosobre si mesma como um pensamento obsessivo. Subir não prometia liberdade;descer não sugeria saída. Era uma arquitetura sem fuga, projetada para cansar avontade antes de atingir o corpo. Tive a sensação clara de que, se subisse, oteto baixaria; se descesse, o chão cederia. Recife constrói assim quando querguardar algo que não pode mais mostrar.

                Não vi grades. Não eram necessárias. O cárcere estava nocálculo das distâncias, na altura das portas, na largura dos corredores. Tudoali dizia: fique! Ou, pior: acostume-se!

                Um espelho oval pendia na parede lateral, preso por suportesenferrujados. Aproximei-me e vi meu rosto comprimido pelo reflexo, maisestreito, mais rígido, como se o prédio já estivesse ajustando minhasproporções internas. Por um instante longo demais, tive certeza de que, sepermanecesse ali, meu corpo aprenderia a caber naquele espaço — e minha memóriatambém.

                   Ouvi passos. Não vinham de fora, nem de cima. Vinham dopróprio edifício, como o deslocamento lento de uma estrutura viva sereorganizando para conter melhor seu ocupante. O cárcere se movia. Sempre semove.

                   Quando finalmente alcancei a porta de saída, preciseiempurrá-la com força excessiva. Ela resistiu como resiste algo que perdeu ohábito de liberar. Ao cruzar a soleira, senti um alívio imediato — e, logodepois, um vazio suspeito. Como se algo tivesse ficado para trás por engano. Oucomo se algo tivesse saído comigo.

                    Na rua, Recife seguia intacta: fachadas antigas, calçadasirregulares, o rio respirando baixo em algum ponto invisível. Mas agora eusabia. A cidade não aprisiona apenas em celas ou instituições. Ela constróiseus cárceres em silêncio, em cal, pedra e proporção.

                    E quem entra por descuido, raramente sai inteiro.

                    Sai funcional.

                   Sai adaptado.

                   Sai carregando, por dentro, a planta baixa de um lugar quejamais esquece seus detentos.



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