SALA DE MÁQUINAS
XADREZ POLÍTICO PERNAMBUCANO
A Disputa Se Aproxima
Palácio do campo das princesasXADREZ POLÍTICO PERNAMBUCANO
Em Pernambuco, as engrenagens do poder giramsilenciosas, mas seus efeitos se acumulam nas arestas da política pública e dadisputa que se aproxima de 2026.
Nos últimos dois dias, a política estadual foimarcada por dois acontecimentos que, à primeira vista, parecem desconexos — umanúncio de investimento e uma crise latente de governança — mas, ao olharatento, definem tensões e oportunidades no tabuleiro pernambucano.
O primeiro, e mais visível, foi o anúncio deum investimento privado recorde de R$ 5,1 bilhões no estado com a presençada governadora Raquel Lyra (PSD). O aporte anunciado pela Neoenergia, emcerimônia no Palácio do Campo das Princesas, sinaliza fortalecimento do diálogoentre o governo e grandes players do setor energético, uma área estratégicapara o desenvolvimento econômico e social. Oficialmente, a narrativa é de cooperaçãopelo desenvolvimento com foco em sustentabilidade e inclusão elétrica, umargumento que ecoa bem em regiões carentes de infraestrutura e com impactodireto na vida das pessoas. (Neoenergia)
Mas, por trás da fotografia inaugurativa,germina um problema mais espinhoso: a crise em torno de um órgão de governoque se tornou centro de polêmica e de pedidos de impeachment contra aprópria chefe do Executivo. A troca no comando da EPTI — empresa estatalresponsável pelo transporte coletivo intermunicipal — em meio a denúncias deirregularidades envolvendo a operação de uma concessionária ligada à família dagovernadora lançou novamente luz sobre o grau de entrelaçamento entrepolítica, relações familiares e administração pública. O pedido deimpeachment protocolado por um deputado estadual do União Brasil, RomeroAlbuquerque, assim que a questão veio à tona, insinua que a crise podeultrapassar o campo administrativo e entrar no político-jurídico formal. (NewsRoom USA | LNG in Northern BC)
No eixo institucional, há outro movimentomenos dramático, mas de impacto duradouro: a posse de Carlos Neves comopresidente do Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE) para o biênio 2026-2027.Essa transição, embora normal dentro dos ritos institucionais, assumerelevância política quando o novo presidente defende uma postura defortalecimento democrático e independência técnica, justamente em um momento emque os vínculos entre administração pública e interesses partidários sãoquestionados com maior frequência. (Diario de Pernambuco) O TCE-PE, tradicionalmente visto como árbitro técnico — e às vezes político — das contas públicas, pode,sob a presidência Neves, ganhar papel relevante na fiscalização de gastos eparcerias de gestão, em especial em ano pré-eleitoral.
Atores ecorrelação de forças
O duelo subjacente entre Raquel Lyra e oprefeito do Recife, João Campos (PSB), continua sendo um vetor central dapolítica pernambucana. Pesquisas recentes (embora anteriores) indicam umcenário de vantagem confortável para Campos caso a disputa pelo governo doestado fosse hoje, com percentuais que espelham uma vantagem consolidada eampliada ao longo de 2025. (Jamildo) O clima editorial e os números de pesquisas são matéria frequente nos bastidores, e podem realimentar a tensãoentre os dois campos, inclusive intensificando a busca por apoios de prefeitose lideranças municipais.
A presença de nomes como Humberto Costa(PT) na corrida pelo Senado adiciona complexidade ao xadrez eleitoral,especialmente se as alianças se cristalizarem de forma não convencional — eisso aparece nas projeções de intenções de voto para 2026. (VEJA) A atuaçãode líderes federais e estaduais dentro dessa campanha certamente vai moldar acorrelação de forças.
Bastidorese sinais indiretos
Nos bastidores, observa-se uma dinâmica quemistura fortalecimento institucional e desgaste político pessoal. Acrise em torno da EPTI e a movimentação pela análise do pedido de impeachmentnão apenas aumentam a pressão sobre Lyra, mas também expõem uma vulnerabilidadeque adversários podem explorar em 2026. Indícios de que aliados da basegovernista já estudam cenários alternativos começam a circular, sugerindonegociações discretas por apoios municipais que vão além da lógica partidáriaclássica.
Paralelamente, movimentos aparentemente“soft”, como o lançamento oficial de campanhas culturais (Carnaval 2026inspirada em produções cinematográficas locais), podem servir como umpaliativo simbólico para reforçar a presença do governo no cotidianosociocultural do eleitorado. (PENews) Em tempos de política polarizada, a cultura torna-se um territórioquase tão estratégico quanto o debate fiscal ou administrativo.
Opinião ecenários
Daqui para a frente, a política pernambucanadeve se comportar como um jogo de xadrez lento: nenhuma peça será sacrificadasem cálculo prévio. A governadora Lyra enfrenta um dilema clássico deincumbente com visibilidade mista — fortalecimento econômico por meio deparcerias e desgaste político por questões de integridade administrativa. Aforça do prefeito João Campos reside na construção de imagem e capital políticona Região Metropolitana do Recife, enquanto no interior do estado seu pesoainda é objeto de disputa por narrativas e apoio municipal.
Do ponto de vista estratégico, dois cenáriosemergem:
- CenárioA: Lyra consegue neutralizar as investidas críticas ao seu governo,transformando anúncios econômicos e programas culturais em vetores deapoio político mais amplo, e mantém sua base coesa, minimizando o impactode movimentos contrários.
- CenárioB: a tensão em torno das pessoas e órgãos públicos expostos à críticainstitucional — TCE, EPTI e seus desdobramentos — catalisa uma narrativade desgaste que alimenta adversários e fragmenta apoios, abrindo caminhopara um segundo turno mais competitivo e incerto.
Provocaçãofinal
Se a política é, como dizem, o encontro dopossível com o necessário, a pergunta que fica para o leitor pernambucanoinformado é esta: em um ano decisivo como 2026, quem de fato controla asnarrativas — aqueles que governam hoje ou os que esperam governar amanhã?



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